• Lucas Wasem

Resenha #2 | Sapiens — Uma breve história da humanidade


O livro Sapiens em uma mesa, com um chimarrão ao lado.
Capa do livro Sapiens — Uma breve história da humanidade / Foto: Lucas Wasem

Como chegamos ao que somos hoje? Como a nossa espécie evoluiu de maneira a estarmos hoje lendo este texto, compreendendo o que está escrito, em um aparelho construído por nós e conectado a algo que não enxergamos? O livro Sapiens — Uma breve história da humanidade tenta responder a essas questões.

Sapiens, escrito por Yuval Noah Harari e publicado no Brasil em 2015 pela L&PM, é organizado em quatro grandes partes — revolução cognitiva; revolução agrícola; a unificação da humanidade; e revolução científica — que, juntas, somam 450 páginas que tentam de alguma forma explicar toda a evolução humana dos últimos 70 mil anos.

A primeira grande parte do livro explica o momento inicial no qual nos diferenciamos dos outros animais, quando tivemos a nossa primeira revolução, a cognitiva. Mutações genéticas acidentais transformaram o nosso cérebro, melhorando a nossa capacidade de comunicação. Esta nova habilidade possibilitou comunicar o que vemos e o que pensamos, facilitando a criação de laços sociais, o que acabou fortalecendo a espécie. No entanto, essa união primitiva dos sapiens também causou a maior extinção de espécies da história, como a do mamute, a mais conhecida delas.

Ao criar uma cultura e se organizar em grupos maiores, os sapiens começaram a domesticar animais e plantas, selecionando-os e alterando-os geneticamente. Isto criou uma relação que pouco a pouco se tornou terrível para o ser humano, que ajustou sua vida em torno dos ciclos de plantio e colheita — um trabalho pesado que necessitava da força humana — , gerando um boom demográfico que piorou as condições de vida, destruindo a riqueza e a variedade nutricional da dieta clássica do caçador coletor. Nesta etapa, com o crescimento populacional e com a necessidade de organizar dados de plantações e de pessoas, foi dado mais um enorme passo da humanidade: a invenção da escrita.

Com pequenos grupos assentados em locais definidos e férteis, safras boas de alimentos criaram o estoque, suscetível a roubos e guerras. Com isso, uma organização local se fez necessária, e laços que unificaram grupos em torno de alguns fatores, como segurança, foram criados — houve, então, a formação de exércitos, visando à proteção das riquezas locais. Assim, formou-se uma casta política e administrativa que até hoje é estruturada de maneira parecida e que unificou moeda, religião e costumes de locais cada vez maiores. Ou seja, ocorreu a unificação da humanidade.

Com essa unificação, as consolidações dos impérios se tornaram possíveis — o que nos leva à última parte do livro, a atual na cronologia da humanidade: a Revolução Científica. A relativa estabilidade gerada pelos grandes impérios acabou criando sociedades que buscavam o conhecimento, com objetivos políticos, religiosos e hegemônicos, despejando recursos que transformaram completamente a humanidade nos últimos 500 anos. A grande descoberta da ciência foi a descoberta da ignorância. Após esta constatação, a velocidade das revoluções (industrial, francesa, tecnológica) só acelerou. Estas, por sua vez, estão levando a sociedade a algum lugar. E qual seria? Harari se debruça a tentar responder ao longo do capítulo.

Harari foi absurdamente feliz ao escrever Sapiens, apresentando diversos assuntos profundos e complexos, bem como histórias interessantes, criando elos e ensinando ao leitor sobre a história da humanidade. Muitos dos fatos descritos no livro são de conhecimento comum, porém a grande sacada do escritor é criar ligações, utilizando o bom humor e a sagacidade ao descrevê-las, tornando o livro fácil de ler e o turbilhão de informações jogadas a cada página mais fácil de absorver. O autor não deixa de opinar sobre os assuntos tratados no livro, principalmente na parte final, na qual nos faz refletir sobre o futuro que a humanidade está traçando.

Harari mostra que sabe escrever, não apenas despejar conhecimento no papel. Para quem não é adepto da leitura, Sapiens talvez seja a melhor opção para se iniciar no mundo dos livros de história. Como foi descrito pelo Financial Times: “Este livro fascinante não pode ser resumido; você simplesmente terá de lê-lo.”

Yuval Noah Harari é doutor em História pela Universidade de Oxford, especialista em História Mundial e professor na Universidade Hebraica de Jerusalém. Sapiens foi lançado originalmente em 2011, em Israel, e se tornou o maior sucesso do autor, que também assina outras obras, como Homo Deus e 21 Lições para o Século XXI.

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