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Marcas da catástrofe: 35 anos do acidente nuclear de Chernobyl

O acidente nuclear de Chernobyl teve consequências que afetaram não só a Ucrânia, como o mundo todo. Reveja o contexto que levou à catástrofe soviética e entenda como o acontecimento impactou o Brasil de diversas maneiras — de alimentos contaminados a tratamentos médicos para crianças ucranianas expostas à radiação, passando também por mudanças em protocolos de segurança nas usinas nucleares brasileiras.

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Foto: Andrej Krementschouk

O maior desastre nuclear já registrado na história ocorreu entre os dias 25 e 26 de abril de 1986. O acidente no reator nº 4 da Usina Nuclear de Chernobyl, localizado perto de Pripyat, na Ucrânia, aconteceu durante um teste de segurança no início da madrugada, resultando em uma explosão e subsequente incêndio que só foi contido no dia 4 de maio. Consequentemente, plumas radioativas foram lançadas na atmosfera, precipitando-se sobre partes da União Soviética e da Europa Ocidental.

 

A catástrofe ocorrida em Chernobyl foi o pior acidente nuclear da história em termos de custos e baixas. Para Johnny Ferraz Dias, mestre e doutor em Física Nuclear Experimental e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nenhum acidente radioativo se compara ao de Chernobyl. "Dentre os acidentes nucleares, esse foi o mais abrangente e o mais ‘espetacular’. Eu trabalhava em um laboratório em São Paulo na época e nós conseguimos detectar a radiação no ar. Foi como se um aerossol tivesse se espalhado por todo o globo”, lembra.

Imagens raras do reator 4, em Chernobyl, feitas pela KGB após a explosão

Fotos: International Nuclear Safety

A fim de evitar uma tragédia ainda maior e de descontaminar o entorno da usina, 500 mil trabalhadores foram envolvidos no processo, que custou cerca de 18 bilhões de rublos soviéticos (o que hoje equivaleria a mais de R$ 1,2 bilhões). O número total de vítimas ainda é controverso. Duas mortes ocorreram na instalação durante o acidente - uma após a explosão e outra por dose letal de radiação. Dias depois, 134 militares foram hospitalizados com síndrome aguda da radiação (SAR), dos quais 28 morreram dentro de poucos meses. Além disso, 14 mortes por câncer devido à radiação entre os sobreviventes ocorreram nos 10 anos seguintes. Houve também, entre a população, 15 mortes infantis por câncer de tireoide.

Primeira ligação para os bombeirosChernobyl
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Para o professor, os números não refletem a realidade. “A União Soviética era um país extremamente fechado, então demorou vários dias para que eles se manifestassem com relação ao acidente em si. Ninguém sabe ao certo o número de vítimas do acidente”, lamenta. O acidente foi classificado, juntamente com o acidente nuclear de Fukushima I, ocorrido em 2011 no Japão, como um evento de nível 7, a classificação máxima na Escala Internacional de Acidentes Nucleares.

A catástrofe motivou novos protocolos e cuidados de segurança em usinas nucleares em todo o mundo, além de inspirar livros, séries e até mesmo visitas ao cenário radioativo. Os efeitos do acidente nuclear não se restringiram aos países soviéticos, como também atingiram o mundo inteiro. O Brasil, inclusive, teve um dos capítulos de sua própria história escrito com base nos efeitos da radiação.

 
 

Estudos indicam que a área contaminada pelo acidente só estará segura novamente em aproximadamente 20 mil anos. A conta no Twitter Chernobyl Status mostra o progresso de limpeza do local. A última atualização mostra que a área não está nem 2% segura no momento. 

AMBIENTE MARCADO PELA CATÁSTROFE

Atualmente, pesquisadores de diversas universidades no mundo desenvolvem estudos que podem ajudar na limpeza do local. É o caso de Tom Scott, professor da Universidade de Bristol e co-diretor do Centro Nacional de Robótica Nuclear (NCNR), no Reino Unido. Ele e sua equipe realizam pesquisas para substituir trabalhadores humanos em áreas de perigo nuclear, utilizando robôs para testar os níveis de radiação e coletar amostras. Scott já chegou a conduzir testes de campo em Chernobyl. Já a Dra. Claire Corkhill, da Universidade de Sheffield, também no Reino Unido, simula materiais contendo combustíveis semelhantes a lava (LFCMs, uma mistura de combustível nuclear, concreto, partes do reator, produtos de fissão e outros materiais, conhecida também como Pé de Elefante) para entender como melhorar os esforços de descomissionamento (desativação) de locais de desastres nucleares.

Embora ainda não esteja em condições seguras, a área recebe muitos visitantes quando o nível de emissão radioativa está baixo. No livro Transiberiana: uma viagem de trem pelo mundo soviético (e por outros países que não me deixaram entrar), o brasileiro e escritor de viagem Zizo Asnis traz relato sobre a visita que fez ao local em 2015. Para ele, a experiência de visitar a cidade de Pripyat foi única e inesquecível. “Foi um local muito diferente de todos que eu vi, justamente pela história, pela tragédia, pelas cicatrizes que carrega. Vale muito a pena ser conhecido por quem tiver a oportunidade”, afirma.

Asnis conta que a visitação é controlada e segue muitos protocolos de segurança, como o tempo de permanência e recomendações para que o grupo permaneça sempre junto ao guia e não toque em nada. Os grupos, com número restrito de visitantes, passam por scanners de radiação (“bem cara de Guerra Fria”, como ele mesmo define) antes e depois do tour, evitando riscos de contaminação. A visita está longe de ser um turismo massificado, como ressalta. “O que é muito bom, até em respeito ao local, que não é uma Disneylândia. Espero que, apesar do boom e da procura que Chernobyl teve nos últimos anos, se mantenha esse controle na visita e esse respeito.”

“Turismo é uma palavra um pouco ingrata para o tour, mas esses lugares merecem ser visitados para que as pessoas tenham consciência sobre as tragédias provocadas pelo homem, para que nunca mais se repitam”, reflete.

“Esses lugares merecem ser visitados para que as pessoas tenham consciência sobre as tragédias provocadas pelo homem, para que nunca mais se repitam”.

Zizo Asnis.

Andrej Krementschouk é o profissional responsável pelas imagens que abrem esta reportagem. O fotógrafo russo tem dois livros publicados sobre a tragédia e visitava o local regularmente para fotografar as famílias que ainda moram na zona de exclusão — eram cerca de 120 pessoas na época, em sua maioria idosos. Trata-se de um território onde é impossível viver, mas diversos dos últimos residentes não querem sair, porque é importante e necessário para eles viverem na terra em que nasceram, perto dos túmulos de seus entes queridos. “Esse carinho e amor pela terra natal, apesar do infortúnio que aconteceu, me ensinou muito”, reflete.

O fotógrafo chama a atenção para um aspecto inusitado: “Andei por vilarejos abandonados em que viviam uma ou duas pessoas, mas na maioria das vezes ninguém vivia, e tudo com que entrei em contato me lembrava contos de fadas que gostava de ler quando criança. Nessas histórias, havia um dragão maligno de três cabeças, mas havia pessoas valentes e especiais que, apesar de suas perdas, permaneceram fiéis a si mesmas.”

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Foto: Andrej Krementschouk

Todas as visitas do profissional ao local atingido pela radiação foram realizadas com a câmera em uma mão e o dosímetro radiológico em outra. Para Krementschouk, os maiores perigos hoje são, na verdade, edifícios que correm o risco de desabar sob a influência da umidade e do gelo.

O fotógrafo compara a exposição à radiação ao coronavírus: “É impossível saber como seu corpo reagirá a uma infecção sem ter ficado doente. Conheci pessoas que viviam a uma distância considerável do epicentro do desastre, em áreas onde o nível de radiação foi ligeiramente excedido e, apesar disso, sua saúde foi significativamente prejudicada. Por outro lado, também conheço uma pessoa que muitas vezes entrou no reator, esteve lá muito tempo, filmou um vídeo no epicentro da explosão e está vivo.”

Krementschouk relembra que poucas pessoas que sobreviveram ao acidente ainda estão vivas e que, sem elas, seus últimos habitantes, o local se transformará em uma Disneylândia do Leste Europeu. “A zona de exclusão demonstra como a natureza é boa sem nós e como pouco importamos para ela”, finaliza.

 “Nessas histórias havia um dragão maligno de três cabeças, mas havia pessoas valentes e especiais que, apesar de suas perdas, permaneceram fiéis a si mesmas”.

Andrej Krementschouk 

Fotos da região de Pripyat cedidas por Andrej Krementschouk

 
CARNE DE CHERNOBYL

Era fevereiro de 1986 quando o Plano Cruzado foi instituído no Brasil. Sua função era conter a inflação que crescia descontroladamente, utilizando táticas como o congelamento de preços e salários. Mas o que se viu, devido à euforia dos consumidores e aos prejuízos da indústria e comércio, que se negavam a repor os produtos pelo preço tabelado, associado à estiagem e entressafra, foi uma crise de desabastecimento no mercado interno. Pensando em garantir o abastecimento, a Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal), ligada ao governo, lançou editais para importar produtos de outros países – como carne e leite em pó. O que não se esperava, no entanto, era que o acidente de Chernobyl, que viria a ocorrer próximo ao início das negociações, teria um impacto tão grande na alimentação dos brasileiros.

Mesmo após cancelar a licitação devido a temores de radioatividade, o governo decidiu retomar as negociações em junho, buscando garantir que os alimentos importados eram seguros para o consumo por meio de atestados para a importação e da avaliação dos níveis de radioatividade pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) na chegada. Mas uma denúncia do jornal O Estado de S. Paulo, publicada em 23 de agosto de 1986, mostrou que o lote de leite em pó recebido no Brasil não era.

Um mês após a importação do leite, o país recebeu 100 mil toneladas de carnes bovinas e suínas dos Estados Unidos e da Europa. A carne foi estocada nos frigoríficos da Companhia Brasileira de Armazenamento (Cibrazem) - que mais tarde, com a fusão da Cibrazem, da Cobal e da Companhia de Financiamento da Produção, viria a se tornar a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) -, em Canoas (RS), distante 18 quilômetros da Capital.

Assim, quando as primeiras carnes desembarcaram no país, em setembro de 1986, os açougues comemoraram o seu recebimento, e a maior preocupação era se a carne importada daria um bom churrasco. A própria imprensa gaúcha publicou diversas matérias defendendo o consumo da carne, que era vendida rapidamente, levando o governo a prometer mais lotes.

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Foi em 1987, no entanto, que as polêmicas em torno da “carne de Chernobyl” começaram, envolvendo um lote de 7 mil toneladas que se encontrava no Rio Grande do Sul e havia chegado entre dezembro de 1986 e fevereiro de 1987 – destas, em torno de 4 mil toneladas estariam armazenadas na Cibrazem, enquanto o restante estaria com a iniciativa privada. O abate teria ocorrido entre 1982 e 1984, antes do acidente na usina nuclear soviética.

Recorte do jornal Zero Hora, de 17 de setembro de 1986

Foi noticiado, na época, que a carne estaria contaminada, mas os laudos iniciais que atestam a radiação não foram localizados pela reportagem, apenas os posteriores, realizados para investigação. Uma matéria anterior à polêmica de 1987, publicada em 21 de outubro de 1986 pelo Estado de S. Paulo, traz dados e pareceres dos técnicos responsáveis pelas análises, indicando que a carne estaria contaminada em níveis baixos (como viria a ser provado posteriormente). Os técnicos, no entanto, ressaltam que não seria possível afirmar a inexistência de riscos de câncer quando considerada a capacidade cumulativa dos elementos radioativos. Na mesma matéria, chama a atenção o fato de um deles afirmar que o Césio não seria um problema no leite contaminado, mas sim a eventual presença de Estrôncio-90, o qual ele garante que não havia. Em seguida, comete um erro ao justificar tal ausência, visto que "não houve explosão no acidente de Chernobyl" — o que aconteceu foi justamente uma explosão do reator, que liberou substâncias radioativas como Césio e Estrôncio. Na próxima frase, mais uma contradição: "No leite mais contaminado por estrôncio importado...", indicando que de fato houve a contaminação pelo elemento.

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Em abril de 1987, com base em uma ação protocolada por uma entidade ambientalista gaúcha que solicitava a suspensão da venda da carne devido à polêmica, a Justiça proibiu a comercialização do produto. No entanto, em janeiro de 1988, baseando-se em laudos que apontavam baixa radioatividade e não indicavam prejuízo à saúde, o Tribunal Federal de Recursos (TFR) liberou novamente o consumo, desde que fossem colocadas tarjas informando sobre a possibilidade de radiação.

Recorte do jornal O Estado de S. Paulo, de 21 de outubro de 1986

 “Desde a sua chegada ao Brasil, a 'carne de

Chernobyl' só trouxe polêmica e confusão”.

Zero Hora, 8 de novembro de 1990. 

Sua venda foi proibida novamente pelo TFR na mesma semana, fato que foi estampado na capa de Zero Hora, um dos maiores veículos do Rio Grande do Sul à época. Apesar disso, uma fala dessa edição chama a atenção para o fato de que as carnes já vinham sendo consumidas ao longo dos últimos anos. Juan Pio Germano, superintendente da Cobal, afirmava: “Pra mim esta carne pode ser comercializada, porque se tivesse que fazer mal já teria feito: em 1986 nós vendemos 12 mil toneladas na Grande Porto Alegre.”

Iniciava-se ali uma polêmica que duraria mais de seis anos e que envolveria diversos esforços e muitas testagens para atestar sua qualidade ou possível radioatividade. Enquanto isso, as carnes permaneceram armazenadas na Cibrazem por um longo tempo.

Capa - Zero Hora
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Depois de dois anos de impasse, em 1990, a carne “radioativa” foi liberada pelo Tribunal Regional Federal (TRF), mas sem autorização para consumo antes de novas análises, devido ao longo tempo de armazenamento. A decisão causou revolta na população, que chegou a propor um churrasco de “carne radioativa” para os responsáveis pela liberação. Independentemente do resultado, a carne teria de ser vendida para o mercado externo, podendo servir apenas para industrialização.

Capa do jornal Zero Hora, de 22 de janeiro de 1988 / Telegrama enviado pelo vereador carioca Paulo Emilio Oliveira (PDT) para o então presidente José Sarney, manifestando indignação

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Enquanto isso, o alimento ia adquirindo um aspecto marrom e desidratado a cada ano que passava – a média para que uma carne permaneça congelada em bom estado é de no máximo 12 meses. Além de ter de correr contra o tempo a fim de evitar uma possível perda do produto, o Estado também arcava com despesas exorbitantes para armazená-lo nos freezers da Cibrazem.

Recortes do jornal Zero Hora, de 31 de outubro de 1990, 16 de novembro de 1990 e 11 de janeiro de 1991, respectivamente

As análises feitas então pelo Ministério da Agricultura em 1991, para atestar se o produto ainda estava em condições de ser consumido, não constataram presença de elementos radioativos, e apenas uma “pequena parte” do produto não estava em condições de uso devido à “má conservação”.

Mesmo os alimentos estando contaminados, a radioatividade em níveis acima do limite estipulado não foi comprovada nos estudos realizados. Diversos documentos, confidenciais à época e hoje disponíveis no Arquivo Nacional, atestam que os produtos não foram expostos à radiação em níveis acima do padrão – nem a carne, nem o leite.

Os laudos produzidos sobre a carne bovina informam que o material coletado não apresentava “contaminação radioativa proveniente do acidente de Chernobyl”. Assim, sob o aspecto radiológico, concluíam que “as carnes analisadas eram próprias para o consumo humano.” Já a carne suína, armazenada no mesmo local, apresentava traços de Césio-137 próximos do limite de detecção.

O laudo técnico sobre o leite em pó, expedido em 25 de agosto de 1986 pelo CNEN, comprova que o alimento apresentava contaminação por elementos radioativos artificiais em valores que representavam 30% da atividade máxima permissível. O mesmo documento atesta que a atividade de Césio-137 era mil vezes superior à normalmente encontrada no país e no hemisfério norte durante os últimos anos. Nas amostras nacionais, até aquele momento, não havia sido detectado Césio-134 em atividade mensurável (a ocorrência dos dois elementos, como viria a atestar outro documento do governo, podia ser um indicativo da radiação proveniente de Chernobyl). Mesmo com as descrições feitas no dossiê, os técnicos recomendavam o seu consumo. “Portanto [...], o leite em pó é apropriado para o consumo humano”, informa o laudo.

Após o episódio do leite, o padrão de radioatividade aceitável foi determinado por um parecer do grupo técnico designado pelo governo, adotando os níveis máximos de contaminação radioativa para alimentos importados estabelecidos pelo Mercado Comum Europeu, de 3.700 Bequeréis por quilograma de leite em pó e 600 Bequeréis por quilograma de qualquer outro produto - o que permitiu a liberação tanto do leite quanto da carne.

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Documentos confidenciais do governo atestam que os produtos não foram expostos à radiação em níveis acima do permitido

 

Além disso, como apontam os documentos confidenciais do governo, dois professores tiveram suas opiniões publicadas na edição de 14 de outubro de 1987 de Zero Hora. Seu parecer era de que os índices de radiação encontrados no leite eram seguros e estavam abaixo do nível aceitável. Mas o dossiê acrescenta: “Todavia, o professor Mundt chamou a atenção para o fato de que, para o aparecimento de doenças como o câncer ou de defeitos genéticos, não é possível o estabelecimento de um limite mínimo de tolerância à radiação.”

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Documento confidencial sobre opiniões publicadas na edição de 14 de outubro de 1987 de Zero Hora a respeito do leite contaminado

O destino da carne foi, enfim, a venda em um primeiro leilão em 1992, que fracassou. Quando finalmente foi vendida, pelo preço de Cr$ 3,9 bilhões (equivalente a R$ 1,41 milhão atualmente), ainda gerou um prejuízo de mais de Cr$ 14 bilhões (R$ 5,09 milhões)  – o custo para estocá-la estava estimado em Cr$ 100 milhões (R$ 36 mil) por mês, gerando um total de Cr$ 6,8 bilhões

(R$ 2,47 milhões) ao longo dos seis anos que permaneceu guardada.

A carne francesa, uma das primeiras a serem importadas, realmente não deu churrasco, como era o temor inicial. O episódio, apesar de ter sido esquecido por muitos brasileiros, foi documentado em uma música do grupo gauchesco Os 3 Xirus, em 1987. Na letra, os gaudérios remetem à polêmica da radioatividade, pedindo “perdão” ao então presidente José Sarney e Dilson Funaro, ministro da Fazenda e responsável pela criação do Plano Cruzado, pois preferiam pagar mais caro a comer a carne importada. Em determinada estrofe, o receio da radiação fica ainda mais visível:

 Quando botei a francesa no espeto

Escorreu um caldo preto e apagou o fogo meu

Pensei comigo, mas que carne mais à toa

No espeto não é boa, muito menos pra panela

Carne Francesa Não Dá Churrasco - Os 3 Xirus 

Mas a realidade de contaminação por carne radioativa no Rio Grande do Sul, por mais distante que pareça, de fato aconteceu. José Antônio Oliveira dos Santos era trabalhador da Cibrazem (hoje, Conab), em Canoas, no final dos anos 1980, e atuava na manutenção das câmaras frias que armazenavam cerca de 2,7 mil toneladas da carne classificada como radioativa. O ex-funcionário teve sua vida e saúde afetadas pela radiação do alimento contaminado.

Os problemas de saúde de Santos, que o levaram a um diagnóstico de contaminação por radiação, se iniciaram dois anos após a saída da empresa. De 1992 a 1999, o ex-funcionário precisou fazer tratamento para infertilidade, devido à baixa motilidade e quantidade de esperma. Em 2002, outro problema surgiu: Santos teve carcinoma papilífero de tireoide. Mas foi somente em 2012, quando teve um carcinoma no couro cabeludo, que percebeu que seus problemas de saúde poderiam estar relacionados à radioatividade.

“Com aquele câncer, comecei a me tratar com a Dra. Rosemeri Goldschimdt, oncologista. Comecei a pesquisar sobre Chernobyl, e encontrei a revista de 29 anos do TRF-4, onde encontrei os dados da carne armazenada na Cibrazem. A Dra. me auxiliou e fez uma relação entre os casos de Chernobyl com minhas enfermidades. Aí a ficha caiu”, relata. “Voltei no médico que me tratou para infertilidade, e ele confirmou que, se estive em contato com radiação, a reação do organismo seria matar as células jovens - ou seja, esperma. A Dra. Rosemeri me pediu exames dos pulmões, que apresentavam sinais de contaminação por exposição a elementos radioativos. Lembro que ela me perguntou se eu havia trabalhado com radioterapia.”

Santos conta que não sabia que as carnes eram contaminadas. “Falavam em contaminação, mas nunca admitiram nem nos deram nenhum equipamento de segurança”, relembra. As carnes eram armazenadas junto a outras consumidas pelos funcionários. “Recebíamos doações de frigoríficos, e estas carnes eram armazenadas juntas, portanto, se contaminavam.” O ex-funcionário acredita que a carne de Chernobyl, como chama, era também consumida pelos trabalhadores.

Ainda em 2012, decidiu ingressar com uma ação contra a empresa. Depois de seis anos, o ex-funcionário ganhou a causa, e a Conab foi obrigada a indenizá-lo em R$ 462 mil pelos danos causados pelo trabalho. A decisão judicial encerrou uma polêmica de mais de 30 anos, ao estipular que as carnes eram, de fato, radioativas. Apesar de existirem casos semelhantes, somente Santos ingressou com uma ação judicial. Os outros funcionários da empresa não quiseram se expor, e os ex-empregados não acreditavam que conseguiriam lutar contra o Estado.

De fato, segundo o advogado Germano Schwartz, o mais desafiador deste caso foi provar que seu cliente teve complicações de saúde como resultado da exposição à carne contaminada: “Havia uma ação civil pública que confirmava que a carne estava no armazém em que meu cliente trabalhava. A segunda questão era dizer se ele estava em contato com a carne, o que conseguimos provar pela descrição do trabalho feita pelos empregadores e por testemunhas. Faltava provar que as lesões cancerígenas derivaram desse contato. Com aprofundamento na literatura, vimos que havia uma sequência de cânceres em ordem determinada que ocorriam devido à exposição à radiação. Fizemos uma perícia médica e foi confirmado. Ele apresentou a mesma sequência de lesões cancerígenas”. 

Apesar de a empresa ter pago a indenização, Santos afirma que o valor não é nada comparado aos danos causados. “Jamais vai pagar a perda de saúde, a incerteza sobre a origem de tudo isso. Nada substitui ter uma vida saudável e sua integridade física cuidada.” Entre os problemas de saúde enfrentados por ele, estão infertilidade, câncer de tireoide, câncer epidermóide na cabeça e no rosto, vários cistos no couro cabeludo, um cisto grande entre as costelas do lado esquerdo, um nódulo no mediastino e a retirada de um pedaço do palato - e, por conta de tudo isso, depressão. Desde 2002, Santos precisa fazer reposição hormonal e, desde 2012, tratamento para depressão.

Em relação à sua saúde atualmente, afirma que é uma incógnita: “A meia vida do Césio-137 é de 37 anos. Pensando que minha contaminação foi de 1988 a 1990, mais 37 anos, tenho até 2027 uma mutação genética acontecendo dentro do meu organismo. Ninguém sabe o que ela pode causar.”

Em abril deste ano, Santos foi infectado pela COVID-19 ao retornar ao trabalho. Como sua maior debilidade sempre foi em relação aos pulmões, acredita que isso contribuiu para a sua hospitalização e perda de 50% da atividade pulmonar em quatro dias, necessitando de sete litros de oxigênio para respirar ao longo do tratamento.

 
ATRAVESSANDO FRONTEIRAS

Se engana quem pensa que o Brasil só entrou na história de Chernobyl com a carne importada durante o Plano Cruzado. Entre 1999 e 2001, um grupo de crianças ucranianas foi enviado para a cidade de Curitiba (PR) para realizar tratamentos médicos. Os filhos de Chernobyl, como ficaram conhecidos, não eram nascidos em 1986, quando ocorreu o acidente, mas desenvolveram doenças e mutações genéticas, como leucemia, em decorrência da exposição ao ar radioativo. 

No dia 19 de julho de 1999, chegaram Liudmila Obremska (10 anos), Dmytryi Mykhailovskyi (7 anos), Maxim Diatchenko (10 anos), Olga Livbitch (8 anos) e Oksana Poliakova (9 anos). Na época, o presidente da Representação Central Ucraniano-Brasileira, José Welgacz Júnior, disse que a vinda das crianças ao Brasil era um gesto de solidariedade e que elas teriam a oportunidade de conhecer mais sobre a cultura brasileira e paranaense. A parceria fazia parte de um programa dos governos do Brasil e da Ucrânia, que também enviou pacientes para Cuba, Espanha e Grécia.

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Crianças ucranianas e seus pais, antes do embarque para o Brasil | Foto: arquivo pessoal

A cidade escolhida para o acolhimento das crianças foi Curitiba, visto que, à época, dos 400 mil ucranianos do país, 350 mil residiam no Paraná. O tratamento foi feito no antigo Hospital Evangélico, hoje Hospital Universitário Evangélico Mackenzie. Um dos médicos responsáveis pelo acompanhamento clínico das crianças durante a estadia no Brasil foi o pediatra Maurício Marcondes Ribas, que tinha apenas 36 anos na época e hoje é chefe do setor de Pediatria do mesmo hospital. Ele explicou que as crianças já realizavam tratamento em suas cidades e vieram para o Brasil para intensificá-los e renovar os ares.

“Eram crianças nascidas próximas à área do acidente ou que tinham pais contaminados e que, potencialmente, teriam as contaminado. Assim que chegaram, passaram por uma avaliação médica para verificar se precisavam ou não de medicações”, conta. 

Ribas lembra que uma criança desenvolveu, durante o tratamento no Brasil, um quadro grave que precisou de tratamento quimioterápico com urgência: “Nós estávamos muito preocupados com a perda dessa criança, mas, no limite do prazo, ela respondeu bem e conseguiu retornar ao país de origem.”

Além da dificuldade no próprio tratamento das crianças contaminadas por radiação, o que era algo novo para a equipe médica, havia também as dificuldades de comunicação. Ribas explica que as crianças eram acompanhadas por um médico que falava a língua delas e o inglês, e ele que ficava responsável pela tradução. “Em algumas situações, quando o tradutor não estava presente, nós tínhamos, de fato, algumas dificuldades de comunicação com essas crianças, mas dávamos um jeito e fazíamos a linguagem universal, gestual”, conta. A língua também foi uma dificuldade para as famílias que receberam as crianças de Chernobyl. 

O primeiro pensamento de Rosângela Komarcheuski quando ficou sabendo, através da Representação Central Ucraniana (RCUB), que as crianças viriam para o Brasil e precisavam de ajuda foi: “E se fossem os nossos filhos?”. Ela e Antônio, seu marido, já tinham três filhos na época e não titubearam em receber uma delas, ou melhor, duas: Dmytry e Maxim. 

“Eu pensava em hospedar um menino, mas, quando contei para o meu marido, ele disse: ‘Se já vamos hospedar um, melhor chamar dois de uma vez’, e eu concordei”, relembra Rosângela. Ela conta que, desde que se encontraram pela primeira vez, sentiram muita empatia, apesar das diferenças culturais. Os dois meninos tinham leucemia e precisavam de cuidados especiais. “Meus filhos sempre foram saudáveis, então eu não tinha essa experiência de ir toda hora ao hospital para fazer quimioterapia, por exemplo”, lembra. 

A família Komarcheuski conhecia o dialeto ucraniano falado por seus familiares, imigrantes, mas as crianças falavam em russo. Assim como no hospital, a linguagem gestual também ajudou neste caso. Aos poucos, cada um foi aprendendo o básico do idioma do outro.  

Marta Sidyr e Estefano, que receberam Liudmila, precisaram fazer pratos típicos da Ucrânia, pois a menina não se habituou a comer a comida brasileira. Marta ouviu muitas críticas quando decidiu receber uma das crianças de Chernobyl em sua casa, mas sabe que fez a escolha certa e mantém um laço forte com Liudmila, que, à época, tinha 10 anos.

 “Nós recebemos o convite da RCUB e, no susto, recusei. Eu me recuperava de uma cirurgia recente e tive receio de assumir a responsabilidade. Uma semana depois, soube que ninguém aceitou e disse sim”, conta.

Nos primeiros dias, Liudmila só falava em russo, o que dificultava a comunicação com a família. “Demorou para aceitar que não sabíamos russo. Depois de duas semanas, acabou confessando que sabia ucraniano”. 

Havia dúvidas se as crianças poderiam emitir radiação e contaminar as famílias hospedeiras, por isso as opiniões se dividiam. Rosângela nunca pensou sobre o assunto, mas Marta tinha medo de ser contaminada. Quando levava Liudmila ao hospital, uma vez por semana, por exemplo, o uso dos elevadores era restrito às crianças. “E ela também tinha receio de contaminação. Trouxe garrafas de água mineral e só bebia da sua garrafa. Quando o estoque estava no fim, nós recarregamos as garrafas durante a noite, sem que ela percebesse”, conta Marta.

Já Marco Antônio Nogas, que hospedou Olga Livbitch, diz que não teve receio de ser contaminado. “Não eram necessários cuidados especiais por conta da contaminação, uma vez que as crianças não foram expostas diretamente à radiação, mas desenvolveram doenças por conta da exposição de seus pais”, explica. Segundo o Dr. Maurício, ainda hoje não há uma conclusão definitiva sobre o assunto. 

Marco não teve problemas de comunicação com Olga. Eles se falavam em ucraniano desde o início, e a menina chegou a aprender um pouco de português nos dois meses em que esteve aqui. Ela ainda não estava diagnosticada com leucemia e veio ao Brasil justamente para confirmar a doença. Com a confirmação, ela passou por tratamentos que tiveram bons resultados e, após o período no país, precisou manter apenas um dos protocolos de saúde. 

A comunidade ucraniana organizou passeios e encontros para acolher as crianças da melhor forma, como uma ida ao zoológico e um passeio de trem. Marta conta que Liudmila tirou muitas fotos, e Rosângela lembra que um dos meninos passou mal por ter comido sorvete, que não era recomendado por conta da doença.

Em sua estadia, Liudmila presenteou Marta e sua família com livros, fitas cassetes, toalhas bordadas e com o pão cerimonial do Previt (saudação ucraniana). Desde sua volta à Ucrânia, elas mantêm contato. Marta já foi seis vezes encontrá-la em seu país e aguarda ansiosamente o fim da pandemia para que possam se reencontrar. 

Marco não tem contato com Olga há 15 anos, mas nunca esquecerá de seus ensinamentos: “Uma criança de 8 anos, do outro lado do mundo, por tanto tempo longe da mãe, lutando para sobreviver, nos faz refletir sobre as consequências que os desastres podem causar. Ela nasceu depois do acidente e mesmo assim foi afetada por ele. Hoje estamos vivendo a pandemia, que não foi causada por nós, mas igualmente somos afetados por ela. Permanentemente temos de nos adaptar a situações que, por mais distantes que estejam as causas, devemos estar preparados para as consequências”.

Maxim faleceu assim que retornou ao seu país de origem. Rosângela ficou sabendo quando conversou, por vídeo, com Dmytryi. O que ela e a família guardam dessa história é gratidão por terem feito parte de um momento importante na vida dessas crianças.

 “Permanentemente temos de nos adaptar a situações que, por mais distantes que estejam as causas, devemos estar preparados para as consequências”.

Marco Antônio Nogas 

Dmytryi afirma que a gratidão é recíproca. Ele nasceu cinco anos após a explosão em Chernobyl, na cidade de Zhytomyr, onde mora atualmente. Grande parte da cidade ainda enfrenta as consequências do desastre: “Minha infância correu bem, mas aos seis anos fui diagnosticado com um tumor cerebral. Isso aconteceu depois que, em apenas um dia, perdi completamente a visão do meu olho esquerdo. Para tirar o tumor, fiz uma cirurgia no cérebro que acabou me tirando, também, o olfato”, conta.

Em 1999, Dmytryi veio ao Brasil para tratamento e reabilitação, mas conta que só foram realizadas análises e pesquisas sobre sua condição. Do período em que ficou na casa de Antônio e Rosângela Komarcheuski, guarda boas lembranças. “Lembro da atitude deles com a gente. Sou muito grato por esses momentos, e tenho certeza de que o tempo no Brasil foi bom para mim”, diz.

O filho de Chernobyl, que agora não é mais criança, explica que a data do acidente na Ucrânia é um dia de lembrança e tristeza. “Muitas pessoas foram feridas e não se pode simplesmente esquecer esse dia. Talvez houvesse menos vítimas se não fossem as ações do governo soviético, que a princípio tentou esconder o que havia acontecido”, lamenta. 

 

Por dias, a União Soviética tentou esconder a tragédia e diminuí-la, mas a gravidade da situação fez com que fosse inevitável que ela viesse à tona. Em maio de 2019, o acontecimento recebeu uma espécie de segunda vida, provocada pela minissérie Chernobyl, produzida pela HBO. Inspirado em fatos precisos da vida real, o programa fez com que o assunto voltasse a ter destaque.

 

HISTÓRIA QUE ENSINA: COMO NÃO
REPETIR OS ERROS DO PASSADO?

 

Em entrevista à revista Veja, Craig Mazin, criador da série, conta que a fidelidade à realidade foi uma peça-chave para o roteiro: “A regra era nunca exagerar para aumentar o drama. A verdade era dramática e horripilante o suficiente”.  

Trailer da série Chernobyl, lançada pela HBO em 2019

Infográfico divulgado nas redes sociais da HBO Brasil em junho de 2019.

O acidente no reator 4 da usina de Chernobyl, localizado perto de Pripyat, na Ucrânia, aconteceu durante um teste de segurança no início da madrugada, simulando uma falta de energia na qual sistemas de segurança e de regulagem foram intencionalmente desligados. Várias falhas resultaram em condições de reação descontroladas, ocorrendo uma explosão seguida de um incêndio, que jogou grafite ao ar livre. O fogo foi contido apenas no dia 4 de maio, nove dias após a explosão.

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Os restos do reator foram enterrados sob uma cobertura chamada Estrutura de Abrigo, como um sarcófago, a fim de reduzir a dispersão de materiais radioativos dos destroços. Em 2017, foi colocado um novo, maior e mais tecnológico revestimento sobre o prédio e o reator.

Vídeo de 2009 mostra o interior do sarcófago em Chernobyl. Pontos brancos na imagem evidenciam a influência da radiação sobre a câmera

 

Para Alex Wellerstein, historiador especialista em armas nucleares do Stevens Institute of Technology, nos Estados Unidos, o caso em Pripyat foi um aviso severo de que escolhas erradas tanto em tecnologia nuclear quanto em seu gerenciamento poderiam ter consequências desastrosas: “Áreas significativas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram contaminadas pelo acidente, com efeitos de longo prazo na saúde, provavelmente afetando a vida de dezenas de milhares de pessoas em toda a Europa. Chernobyl é o exemplo definitivo de uma tragédia produzida pelo homem e, portanto, totalmente evitável”, observa.

Com base nos estudos feitos após o desastre de Chernobyl e levando em conta a magnitude da tragédia, o mundo inteiro passou a tomar mais medidas preventivas em relação à energia nuclear. No Brasil, as usinas Angra 1 e Angra 2 adotam uma série de protocolos para evitar que a história se repita.

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EQUIPE
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Fernanda Polo

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Giovanna Parise

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Mariane Venditi

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Reportagem produzida para a disciplina de Ciberjornalismo III da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ministrada por Marcelo Träsel.